Casa da Criança de Tires – Casa de Acolhimento Residencial

Vanessa Trindade, Auxiliar de Ação Educativa

“Passaram-se 5 anos e ainda hoje me lembro daquele sorriso que recebi
quando cheguei à Casa da Criança. Era um menino de cabelo castanho
escuro, comprido e encheu de imediato o meu coração. A doçura e
genuinidade naquele olhar eram contagiantes. Faria toda a diferença se
cada ser humano adulto pudesse ser um anfitrião com tal dignidade.

Não foi um processo fácil ter de me habituar a gerir a partida de cada um
dos meninos que por ali iam passando, mas fui entendendo que essa era
a verdadeira missão do projeto.Aprendi a encarar aquela passagem pela casa da criança como se de uma ponte se tratasse, cuja travessia envolve cuidado, segurança, regras, desenvolvimento de autonomia e, acima de tudo, o resgatar do EU SOU de cada um deles.

Quando as crianças aprendem que cada um deles é um SER único, merecedor de todo o respeito, serão desenvolvidos laços de afetos dentro de cada um, fortalecendo consequentemente o sistema imunitário a nível físico e emocional. Aprendi que a nossa verdadeira missão é sermos um pouco os Pais destas crianças, cujos progenitores se encontram ausentes da vida deles por vários motivos, e, a cada um de nós é-nos dado esse privilégio de os ajudar a aprender a usar as próprias asas durante o voo ao longo da sua existência.

O mais incrível é que, ao ver a capacidade de superação de cada um deles no decorrer desta travessia, sendo esta mais curta para uns e mais longa para outros, dependendo da história de vida por detrás de cada um deles, entrei num processo de busca de autoconhecimento e comecei a querer aprender a lidar com os vários tipos de sentimentos de uma forma diferente,
tanto em relação a mim própria como em relação às pessoas que me rodeiam. Posso dizer que tenho crescido com eles. Sou grata à vida por me ter presenteado ao longo destes 5 anos, fazendo parte da vida de todos estes meninos.

Finalizo esta minha mensagem, citando um escritor Brasileiro, Augusto Cury, cuja maioria das obras fala sobre a formação das crianças e adolescentes, pois estes serão os adultos de amanhã. Ele diz que a verdadeira educação vai além da formação escolar/académica, devendo assentar em pilares fortalecidos de afetos, cujo papel dos formadores/educadores/Pais será o de
estimular o potencial de cada pensar e discernir de cada criança, para que, cada uma delas possa crescer e aprender a SER, e já agora, ouso acrescentar, a SER FELIZ!

Tires, 19/10/2018 – Reportagem na Casa da Criança de Tires, que acolhe crianças que foram retiradas às famílias por diversas razões. Salomé Santos brinca com as crianças no parque infantil
(Filipe Amorim / Global Imagens)