Casa da Criança de Tires – Casa de Acolhimento Residencial

Hugo Mathias, Educador Casa da Criança de Tires

“Pedem-me que escreva sobre como é ser educador numa instituição, a Casa da Criança de Tires – a única que eu conheço! Pois bem, ser educador é ter a liberdade para se ser educador, isto é, liberdade para nos encontrarmos como tal. Ser educador é conhecer as crianças, não as crianças mas cada uma em particular. É conhecer as crianças através dos professores, assim como o que elas próprias lhes suscitam, a eles.

É conhecer as crianças por elas, mas também pelos voluntários e ao que os motiva, para nos motivarmos e tentarmos fazer igual ou melhor; não esquecendo nunca que o que nos motiva tem muito que ver connosco, com todo o passado que carregamos. Ser educador é, pois, conhecer as crianças, por elas e pelos cuidadores e todos os que lidam diariamente com elas. E é aprender com os melhores, mas só se formos capazes de reconhecê-los, para ver os modelos e práticas educativas que trazem consigo, fruto de longas histórias de família. É dar valor, por exemplo, a isto que um monitor me disse uma vez: elas merecem melhor! E ser educador é respeitar o que a elas próprias motiva, ou conduz, a serem como são.

E é tentar que aprendam a viver da melhor forma possível que desejamos para elas. E ser educador numa instituição é sermos capazes de nos divertirmos com elas, assim como de ficarmos tristes e zangados, com  e por elas, sem nunca gostarmos menos delas. E ser educador na Casa da Criança é sermos crianças! E adultos ao mesmo tempo. É sermos pai e mãe numa família grande, sem laços de sangue, mas todos unidos por elas. É sermos educados por outros educadores, sem título, porque ser educador se deve muito mais à forma como fomos educados e ao que retiramos disso. É portanto permitirmo-nos ser educados por outros e por nós mesmos, assumindo que também erramos; e sermos perdoados quando não nos perdoamos. E é cuidar que as crianças são como são, por uma questão de educação, transmitida pelos pais e assimilada por elas, ou por imposição ou por modelagem, ou porque assim como são não lhes foi permitido sequer ser, daí a necessidade de afirmação, até a necessidade de se zangarem, até a de se entristecerem… Ser educador é ver além da questão educativa, e respeitar as diferentes formas que há de se ser. Ser educador é também
perceber, ou tentar perceber, a angústia das crianças, quanto ao que esperam e porque esperam, que alguém goste delas o suficiente para as vir buscar… Ser educador é conseguir ver a coragem destas crianças! E ser
educador é tentar abrir a porta da Casa da Criança com a chave de casa, todo o santo dia! E depois ir trabalhar e depois sair, sabendo que eles sabem que não somos a sua verdadeira família… mas é um pouco viver com
elas, sempre. Ser educador é isto e muito mais, e é só um emprego! E é saber dizer olá… e é saber dizer adeus, de forma reservada, sabendo que muitos olás e adeus elas têm dito, e que muitos ainda dirão pela frente. E ser educador é ouvir uma mesma pergunta da boca de todas as crianças que passaram na Casa: Hugo, tu também és filho, tens mãe? Agradeço à Fundação e a todos, miúdos e graúdos, a oportunidade de
ser educador assim.”

Tires, 19/10/2018 – Reportagem na Casa da Criança de Tires, que acolhe crianças que foram retiradas às famílias por diversas razões. Emanuel Carvalho
(Filipe Amorim / Global Imagens)