Casa da Criança de Tires – Casa de Acolhimento Residencial

Entre sorrisos e confidências… Na Salinha dos Segredos

Uma vez uma criança partilhou “Estou triste… Gosto dos amigos, gosto dos crescidos, mas eu quero ir para a minha casa” ao qual uma criança mais velha respondeu com alguma indignação, “Mas aqui vais passear, vais com a família amiga e fazes coisas novas!”

Se pensarmos no que é transmitido percebemos o quão difícil pode ser para uma criança, separada precocemente da sua família, integrar uma instituição com novos cuidadores e novas rotinas. É, no entanto, também fácil compreender que, em muitos casos, a separação da família implica o afastamento de situações de negligência ou maus-tratos pelo que o acolhimento pode ser vivido de uma forma contentora. A ambivalência dos sentimentos pode surgir na mesma criança, em diferentes momentos do acolhimento.

No acolhimento impõe-se o afastamento temporário ou prolongado da criança do seu meio familiar e embora esta situação possa ser temporária impõe a adaptação e o crescimento num contexto totalmente novo, entre afetos soltos com muitos “irmãos”, entre atenções partilhadas em turnos de adultos que pretendem ser o mais próximo que têm da figura parental. O mundo que conheciam mudou e é agora um mundo institucional, uma casa acolhedora que pode ser mais ou menos familiar, mas nunca a família.

Na Casa da Criança de Tires, as crianças conhecem um novo mundo, um mundo que se pretende tanto de afetuoso como de terapêutico. Tendo em consideração as histórias de vida de cada um, torna-se fundamental a intervenção individualizada ao nível das competências pessoais, emocionais e comportamentais.

Fruto de vivências negativas, em contextos familiares desestruturados, muitas destas crianças integram a instituição com marcas negativas evidentes no desenvolvimento físico, social, afetivo e cognitivo. O trabalho desenvolvido pretende ser reparador de cuidados precoces insuficientes, negligentes ou desadequados, promovendo o bem-estar da criança e estimulando um crescimento saudável.

As crianças acolhidas são, na grande maioria, crianças cujo processo de socialização foi realizado com muitos incidentes e em que o padrão de interação com os adultos foi desenvolvido de forma negativa não permitindo a existência de uma relação afetiva equilibrada e segura. É, então, comum que algumas crianças apresentem dificuldades ao nível cognitivo e sócio afetivo com reflexo direto nas aprendizagens escolares, integração social e relacionamento interpessoal. Recordando, uma das integrações, relembramos o acolhimento de uma criança vítima de negligência e maus-tratos, em que o seu natural cumprimento, durante várias semanas, era o punho erguido em tom de ameaça murmurando repetidamente, num som abafado, “Tu levas”, terminado com um palavrão que não se fazia esperar numa criança tão nova.

Em muitas situações, as dificuldades de relacionamento interpessoal são trabalhadas através das dinâmicas de grupo desenvolvidas. Considerando-se a partilha de uma problemática semelhante e de uma experiência comum como facilitador da comunicação, compreensão, confiança e empatia. De uma forma lúdica e em grupo são trabalhados conteúdos marcadamente emocionais, encontrando e partilhando-se estratégias entre as crianças. “Podes chamar o adulto em vez de bateres” ou “Pede um abraço quando estás nervoso” são algumas das sugestões que surgem, sempre mediadas e dirigidas pela psicóloga. Os grupos são criados de acordo com a faixa etária da criança, tendo em consideração o seu desenvolvimento e competências para que numa componente lúdica e pedagógica sejam introduzidas atividades cujas temáticas visam o treino de competências pessoais, sociais e emocionais. A relação, cooperação e a empatia desenvolvem-se, entre risos e confidencias, ouve-se, frequentemente, “Eu também era assim”.

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